o espantalho
é duas vezes maior que o medo
mas veste roupas que transbordam
fossiliza-se no coração dos campos
e amedronta, silencioso, até o vento
fiquei marcado com a ausência de traços
o rosto lembrando um medo de palha
ou pano ou qualquer material inerte
que causa espanto pelo engano
demorei pra ver a madeira
que crucifica o boneco no ar
com seus kilos de gritos invisíveis
nos bolsos da jardineira sempre rasgada
aprendi a mover o sangue mais veloz
minhas pernas em roupas curtas demais
pra entrar na floresta, na casa, quarto, armário
fugir do espanto surdo e mergulhar num tiroteio explícito
familiar e mais alto do que o corpo amarelo jamais alcança
enquanto o espantalho me olhava ao longe
os corvos devoraram a colheita
Nenhum comentário:
Postar um comentário