canções, poemas, escritos

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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

fantasma do verde

Este não é um relato sobre você. Não. É sobre um cara que acorda pela manhã, geralmente cedo, geralmente antes que a cidade de fato acorde, naqueles minutos indecisos quando a luz dos postes na rua se apaga e do alto da sacada você força os olhos para enxergar o contorno das coisas. Não. Decididamente não é dia ainda. É hora do café forte e das luzes na baia desaparecendo como vagalumes. Nunca me canso disso, dessa visão em plongée sobre a cidade, das manhãs que vejo nascer. Não canso de saborear o tempo, torrado e fumegante vindo da terra acima até a sola dos chinelos. Já é tempo de primavera. Ele contempla a técnica das cores, procura decifrar suas transições mais sutis até sua mente se confundir numa visão sem cor. Fecha os olhos e abre-os de novo. Entre as cores nascentes – o azul-claro, o rosa, o laranja – há o verde. Faixa imperceptível, porém que está lá, enviesada entre as outras mais óbvias e impacientes. O verde do céu, o discreto verde do céu que pintei com meus olhos no céu da primavera. A cidade agora já desperta. Pequenos retângulos de luz se acendem como televisores suspensos ao longe. Há outras pessoas nas sacadas, outros cafés e outras fumaças. No céu, o fantasma do verde. Esta é a pequena aurora boreal do homem da sacada que se retira, pensando nas tarefas do dia: os papéis, o trabalho, o trânsito, o programa de humor no rádio, a aula de pintura na qual se esforça em dar volume a um vaso verde para sua primeira aquarela. O dia desvanece assim, diluído e dividido entre as diferentes vibrações de cores sob meu olhar atento. À noite, a sacada se transforma. Nela, tomo um chá e o tempo me recobre com o sereno, como fumaça cuspida pelas estrelas. Eu me curvo sensivelmente, às vezes com a vaga impressão de estar prestes a cair. Sinto que sim. Há duas pessoas em cada extremidade do dia, acima da cidade. O que as liga me escapa como o espectro de um verde íntimo e magnético que, sem se mostrar, mantém este corpo em pé. É um cordão umbilical que nutre os dois seres de um vai e vem de fluxos e humores. Estou, sou colado em você. Diferente da vida que surge e cresce dentro de outro ser, somos excrescências insuspeitadas, ligadas por uma gravidade ainda a ser descoberta. No final, por mais que eu relute, me perca, me esqueça, na mesma sacada somos duas imagens suspensas no tapete voador. Você anuncia o dia. Eu sussurro a noite. Somos o invisível traço que torna evidente aos olhos, e ao mundo, uma constelação.

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